Felizes os Felizes
Para evitar o total e completo abandono deste espaço, posto este texto maravilhoso, que sintetiza a infância de vários, incluindo a minha.Felizes os Felizes
Tem certos dias, quando passo no subúrbio, que vejo a gurizada jogando bola no barro vermelho. Estou eu lá dentro do ônibus, voltando esgualepado e com toda a mortalidade do mundo nas costas, e uns oito ou dez malandros estão correndo atrás de uma bola, já quase escuro. E tudo que eu mais queria era descer do ônibus e me infiltrar no meio do jogo, fingindo que não me envergonhava dos muitos centímetros e quinze anos a mais que meus companheiros de time e adversários.
Nada no mundo algum dia vai poder se comparar aos meses do ano abençoados pelo horário de verão quando se tinha entre dez e quinze anos de idade. Já nos parecia um absurdo estudar pela manhã e termos apenas cerca de cinco horas para ficar correndo em um campinho improvisado, com sol, vento ou chuva. Nas férias, não havia nada que pudesse a impedir a correria desenfreada durante todo o dia. E sem nenhum Paulo Paixão para supervisionar, sem desfibrilador na beira do campo. Os times mudavam, equipes de fora entravam, alguma palhaçada servia de intervalo. O sol desaparecia e continuávamos voando atrás da mancha branca que pulava pelo terreno irregular. Até que aparecia uma mãe para nos lembrar que o paraíso não existe, que aquele prazer tinha que ter um fim. Saíamos cabisbaixos, cansados e satisfeitos. E, mesmo fingindo que não, tínhamos consciência de que nem acabando no time profissional do clube de coração conseguiríamos sentir a mesma coisa. Aquilo teria de acabar, porque divertir-se demais e tanto e de forma tão perfeita não é uma coisa justa num mundo fodido como este.
Copiado descaradamente e sem nenhum pudor daqui.

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